sábado, 19 de novembro de 2011

Porque o Espiritismo NÃO é racista. Ou a necessidade de contextualizar

Lisiane, tudo bem?

Queria comentar no seu site sobre essa questão do racismo no Espiritismo. Entretanto, como gosto de falar (escrever) muito, achei melhor fazer um post sobre isso.

Em primeiro lugar, quero dizer que este post não é uma defesa do espiritismo. Se o espiritismo fosse bom dispensaria defesa, e se ele precisa de defesa é porque tem algo errado.

Além disso eu faço parte de um grupo (modesto, admito) de pessoas que não consideram o espiritismo uma religião. Mais: buscamos seguir a máxima de que entre a ciência e o espiritismo ficamos com a primeira. Ou seja, se a ciência já mostrou por A mais B determinadas questões que, sob a luz da doutrina, estão de forma equivocada, nem pensamos duas vezes: adotamos o que a ciência comprovou.

Tentamos, na medida do possível, ler os cincos livros da codificação (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, Evangelho Segundo o Espiritismo, Céu e Inferno e A Gênese) com o máximo de senso crítico possível, e não aceitamos a codificação como uma letra morta e estanque e acima do bem e do mal. Muito pelo contrário: deve ser tratada como passível de críticas e sujeita a novas leituras e discussões sempre guiadas pelo bom senso.

Indo ao cerne da questão de que o espiritismo é racista, para entender essa questão é preciso contextualizar o espiritismo, especialmente no que diz respeito a quando ele surgiu (meados do século XIX). E, para isso, vamos a um dos meus "causos":

Sou Mestre em Engenharia da Informação, e o tema da minha dissertação é sobre simulação multiagentes (um tipo de simulação em inteligência artificial) de multidões em pânico sob a luz do comportamento coletivo. A minha defesa foi no ano passado, mas a minha qualificação foi em 2009. Para poder preparar o material para a qualificação e para a dissertação em si tive que estudar muito. E estudei um psicólogo francês chamado Gustave Le Bon, mais precisamente o seu livro "A Psicologia das Massas".

Pois bem, durante a arguição dos avaliadores da banca, uma das avaliadoras (que é professora de comunicação) alertou para o fato de que Le Bon era claramente racista, sexista e todos os "istas" que você possa imaginar. Um tal de Adolf na Alemanha usou esse livro e outros trabalhos de Le Bon para escrever um tal de "Mein Kampf". Não foi só o Hitler que pegou idéias de Le Bon: Freud e o escritor brasileiro Monteiro Lobato também pegaram.

Voltando ao espiritismo: quando ele foi codificado(*) lá pelos idos de 1852 a 1860 a visão corrente no mundo infelizmente era essa: negros deveriam ser tratados como raça inferior, assim como as mulheres. Os brancos seriam "a evolução da espécie" e deveriam buscar a pureza acima de tudo, evitando a miscigenação. Essa visão foi defendida porque atendia ao status quo: tirando o Brasil, a maioria dos países "civilizados" tinha abolido a escravidão. Entretanto, os negros continuavam a ser marginalizados, e os novos artifícios para isso eram as desculpas que vinham da religião (quantos santos negros ou de outras etnias vc. conhece? Isso sem falar das santas...) e da "ciência" (pseudociência, diga-se).

Isso quer dizer que o espiritismo deve ser "perdoado" porque foi concebido (detesto o termo revelado, pois parece coisa de religião) no século XIX e, naquela época, o racismo era institucionalizado? Não. No entanto, o Espírita com E maiúsculo (tô longe disso, mas um dia eu chego lá) deve ser crítico em relação à codificação. Essas questões que você colocou mostram o quanto que a doutrina deve ser atualizada sob a luz da ciência. Pena que a maioria dos espíritas tratam a doutrina como mera religião e a codificação como letra morta, tal como uma bíbila, ou pior ainda: sem a possibilidade de contestação.

Concluindo, esse é o motivo pelo qual eu não considero a doutrina dos espíritos racista: mesmo constando da codificação, o espírita deve sempre colocar o bom senso em primeiro lugar. Entre um texto escrito há mais de 100 anos e o bom senso e a lógica, advinha de que lado eu vou ficar?

Abraços e obrigado por trazer esse tema!